2007-03-28

O Luiz Carvalho do Instante Fatal refere-se em dois dos seus ultimos post’s à Baixa da Banheira, e se com o primeiro ainda hesitei em responder, o segundo convenceu-me. Interessou-me sobretudo o retrato feito por alguém que não conhece esta terra, mas que não deixou de notar algumas das suas características, infelizmente com a contextualização errada.

A Baixa da Banheira não é um subúrbio de Lisboa, mas sim do Barreiro, já que nasceu, não nos anos 60, mas a meio da década de 30, quando Alfredo da Silva resolveu ampliar as indústrias que por aqui já possuía. Por esses tempos, o lugar onde hoje se situa esta terra estava dominado por algumas quintas, que apesar da pobreza dos terrenos ainda iam dando alguns frutos. Quando o Município do Barreiro impediu que as gentes vindas de norte a sul, fugidas à fome procurando trabalho nas fábricas, construíssem casas sem o mínimo de condições, o baixo preço dos terrenos e o alheamento do vizinho Município da Moita empurram a construção para o extremo norte do concelho, na freguesia de Alhos Vedros, local o bastante próximo das fábricas para que o trajecto se possa fazer a pé, e que mais tarde viria a tomar o nome de Baixa da Banheira. Como vê, somos o subúrbio do subúrbio, e se fossemos franceses o mais certo seria encontrá-lo por aqui a fotografar carros a arder e brigadas policiais em choque. Mas não, não somos.

Em poucos anos foram assim construídas barracas do todo o género, sem cuidados de higiene, predominando os páteos em que os mais “abastados” empenhavam os seus bens construindo anexos no seu interior, que por sua vez, alugavam àqueles que pouco ou nada tinham. O ritmo foi tal que em 1960, o recenseamento geral da população elaborado pelo INE, contava já 12525 habitantes, mais do que algumas capitais de distrito. Agora imagine este ritmo de crescimento a par com a falta de estruturas: as primeiras aulas começaram em 1941 mas a primeira escola só foi construida nos anos 50, e o ensino preparatório chegou em 72 através de uma escola que se manteve provisória por mais de 20 anos. Bens que damos hoje por essenciais e adquiridos, como a electricidade e a água potável, chegaram, a primeira a meio da década de 50 e a segunda nos finais de 1961 (mais de 12 mil habitantes, lembra-se?), e só em 1964 se deu a instalação de um posto da GNR que ainda hoje existe, com meia dúzia de agentes. Em 1966 foram instalados os primeiros os esgotos, e o posto de saúde só chegou em 1977. Dado que a pobreza era por aqui uma constante, muitos foram os que depois de aqui chegar saltaram para França ou Alemanha. Esta terra deve muito a Salazar, ou talvez seja o contrário, às vezes baralho-me.

Alguns dos seus arruamentos têm nomes como Rua da Liberdade, Rua 1º de Maio, Rua 25 de Abril, Alameda do Povo, Rua do Trabalhador, Parque Zeca Afonso, ou mesmo Praceta Karl Marx, não por falta de cultura democrática mas porque aqui a luta pela democracia foi sempre relevante. Voltando novamente um pouco atrás, até ao tempo da candidatura do General Humberto Delgado, apesar das irregularidades normais naquele tempo, o candidato da oposição perdeu aqui por pouco mais de uma dezena de votos (ainda antes da criação da freguesia, estes resultados reportam à freguesia de Alhos Vedros da qual esta povoação fez parte até 1967). Nas eleições de 1969 para a Assembleia Nacional apesar da grande quantidade de habitantes impedidos de votar, a União Nacional apenas obteve 23,2% dos votos contra os 76,6% da CDE. Naturalmente, seguiram-se prisões e exílios políticos ...

Com a democracia, e a “estabilização” do regime democrático na alternância PS/PSD é fácil perceber que, graças ao espírito mesquinho de quem nos vai governando (este sim, um tique salazarento), um concelho e uma freguesia onde o PCP ganha eleições consecutivamente (e nesta freguesia sempre com maiorias absolutas), são votados ao abandono. Como exemplo recente, o Plano de Revitalização da Vila da Baixa da Banheira acordado entre o Município e o Governo recebe, da parte deste, apenas um terço das verbas acordadas. Em termos económicos, praticamente toda a grande indústria que alimentava esta zona desapareceu, ou foi reduzida drasticamente, e os tais velhos a que se refere, ainda antes de serem velhos, foram empurrados para o desemprego ou para reformas antecipadas. Ficam as tascas, os serviços, contrução civil, o pouco comercio tradicional que se aguenta com as grandes superfícies, e pouco mais. Os tempos estão difíceis, e ainda hoje ouvi na rádio que em Portugal um terço dos pobres são trabalhadores e outro terço são pensionistas.

Pelo atrás descrito facilmente se conclui que o panorama não é muito animador e as procissões também não pugnam por ser eventos muito alegres, nem mesmo esta igreja tem grande semelhança com as belas catedrais góticas que em tempos foram semeadas pela Europa. Em contrapartida temos um busto de um padre erigido à custa de subscrição popular, o que aos meu olhos surge como um monumento muito mais belo do que um monstreiro (não é erro) mandado erigir por um qualquer absolutista de bom nome. Não sendo também esta uma terra onde se note muito o avanço na cirurgia estética, ainda vão aparecendo, de tempos a tempos, um ou outro modelo automóvel de gama mais elevada, mas Ferraris é mais lá para o norte onde, dizem, se trabalha muito.

Curiosamente, esta é hoje uma freguesia onde aproximandamente 8 % da população concluiu o ensino superior, e onde 19% da população é estudante (segundo os censos de 2001), alguns deles certamente na antiga ESBAL ou mesmo na UAL. Como qualquer zona suburbana temos um Fórum Cultural, um parque urbano, algumas rotundas e lojas Minipreço.

Por último queria dizer-lhe que também já tentei fazer umas fotografias na procissão, não nesta (que nem da sua existência dei conta) mas na outra em honra a S. José Operário que se realiza lá mais para o verão, e tenho que lhe confessar que também não gostei. Como ateu também me fez confusão em encontrar por lá figuras que há muito conheço os seus hábitos nada cristãos, também me incomodaram os carros estacionados na rua a estragar 95 % das fotografias (sim, porque isto da fotografia tem muito de cerimonial religioso), e nunca deixo de me questionar sobre que fé é essa que leva as gentes em romaria atrás de um andor. Por tudo o que lhe descrevi, a conclusão a que chego é que somos portugueses, por muito que com isso se possa sentir admirado.

Para a proxima vez que cá quiser aparecer, se tiver oportunidade, avise com alguma antecedência e pode ser que se arranje um programa mais arrojado, nem que para isso se entre numa tasca para petiscar uns pastéis de bacalhau. Com sorte ainda se fazem umas fotografias.

6 comentários:

nunocavaco disse...

João o teu post responde ao Sr. mas não me conformo com as alusões que o Sr. fez. Estão completamente fora de contexto e parecem-me escritas por um ser que se julga superior, julga porque do alto do seu pedestal pensa que os outros, os normais, os mortais, andam por aqui sem terem a sua sapiência. Mas é completamente ao contrário, tal como o teu post o demonstra.

Considero que o Sr. deve ter tido muitas dificuldades em encontrar o caminho para casa.

Unknown disse...

Quando a percepção que se tem de um país inteiro se constroi por aquilo que se vê pelas janelas de um jipe percorrendo o eixo Cascais-Lisboa, é natural que todos os "outros" sejam uns pacóvios retrógrados, tristes e atrasados por opção.

Aliás o país é todo ele um fardo enorme para Lisboa, essa bela cidade cheia de "luz" [esta confesso que nunca percebi bem] e sobretudo de gente muito inteligente capaz de nos explicar como somos todos tão pobrezinhos e atoleimados.

Anónimo disse...

Eu é que vou endireitar isto como nos bons velhos tempos.

O Broncas disse...

Gostei do estilo e do trato que lhe deste.

Anónimo disse...

"Em contrapartida temos um busto de um padre franciscano erigido à custa de subscrição popular..."

Não vou fazer comentários nem a este blog nem ao do prof Luiz Carvalho só actualizar uma citação em relação à citação, este "monumento muito mais belo" não é de nenhum franciscano.

joao figueiredo disse...

quando escrevi o texto estava convencido de que assim seria, mas não encontro fonte que o confirme, pelo que certamente estava equivocado. obrigado pela correcção.